Fábrica nos USA: A STIHL nasceu na Alemanha, mas duas unidades abertas praticamente em sequência ajudam a explicar como o grupo construiu sua atual rede industrial internacional. Em 1973, São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, tornou-se a primeira operação produtiva da empresa fora da Alemanha. No ano seguinte, a companhia iniciou a produção em Virginia Beach, no estado da Virgínia, onde atualmente mantém sua maior unidade fabril no mundo.
Mais de cinco décadas depois, a ligação entre Brasil e Estados Unidos vai além da presença da mesma marca nos dois países. São Leopoldo tornou-se uma unidade especializada em componentes estratégicos e responde por cerca de 90% dos cilindros utilizados pelo Grupo STIHL globalmente. Virginia Beach, por sua vez, reúne produção em grande escala de equipamentos a combustão e a bateria, componentes, plásticos, pistões, virabrequins e sabres, atendendo o maior mercado individual da companhia.
A relação comercial entre as duas pontas também está documentada. Dados divulgados pela STIHL Brasil mostram que, em 2023, a subsidiária brasileira exportou aproximadamente R$ 1,2 bilhão, equivalente a 42% de sua receita naquele ano. Estados Unidos, Alemanha e México estavam entre os principais mercados externos, e a companhia citou especificamente os EUA e a Alemanha como destinos dos cilindros produzidos no Brasil.
São Leopoldo ocupa posição estratégica na fabricação mundial da STIHL
A unidade de São Leopoldo não funciona apenas como fábrica destinada ao mercado brasileiro. Dentro da divisão internacional de produção da STIHL, o complexo concentra fabricação de cilindros, virabrequins, peças plásticas, sabres, componentes e processos de fundição, além da montagem de equipamentos destinados ao Brasil e a outros mercados.
A especialização em cilindros é particularmente relevante. Segundo o próprio Grupo STIHL, nove em cada dez cilindros utilizados mundialmente pela companhia saem do Brasil. O componente é uma parte fundamental dos motores a combustão e integra uma estratégia de elevada verticalização industrial, na qual diferentes fábricas do grupo se especializam em produtos ou componentes que circulam pela rede internacional de manufatura.
A trajetória industrial brasileira ganhou escala ao longo das décadas. Quando completou 50 anos no país, em 2023, a STIHL informou que São Leopoldo já havia fabricado mais de 125 milhões de cilindros desde 1996, além de mais de 15,4 milhões de motores e 15,8 milhões de sabres ao longo de diferentes períodos de produção.
Essa posição continua sendo reforçada por investimentos. Em 2025, entrou em operação em São Leopoldo uma nova linha de montagem de sopradores e pulverizadores. Segundo o Relatório Corporativo Integrado do Grupo STIHL, a estrutura pode elevar em até 28% a capacidade produtiva em dois turnos, com potencial para chegar a 100 mil unidades anuais. A linha foi concebida de maneira modular e flexível, permitindo alterações entre diferentes modelos.
O mesmo relatório mostra que a fábrica brasileira também participa de iniciativas internacionais de engenharia. Uma delas envolveu o desenvolvimento conjunto, entre São Leopoldo e a fábrica de fundição de magnésio do grupo na Alemanha, de uma ferramenta complexa para moldagem por injeção, destinada a aumentar precisão e eficiência industrial.
Operação brasileira chegou a R$ 4 bilhões e exporta metade da receita
A dimensão econômica da subsidiária também aumentou. A STIHL Brasil registrou R$ 4 bilhões de faturamento em 2025, avanço de 25% em relação ao ano anterior e recorde para a operação. Aproximadamente 50% do resultado veio das exportações, direcionadas a 73 países.
Em comunicado sobre os resultados, Cláudio Guenther, presidente da STIHL Brasil e do Hub Latam, afirmou que atingir os R$ 4 bilhões refletia não apenas volume, mas a estratégia adotada pela empresa. A partir de São Leopoldo, a companhia também passou a coordenar o Hub Latam, estrutura que integra 32 mercados da América Latina e Caribe e áreas como compras, planejamento, logística, serviços, tecnologia e finanças.
Para 2026, a operação brasileira prevê R$ 101 milhões em investimentos direcionados a tecnologia, automação, portfólio, qualificação e sustentabilidade. A companhia também programou 16 lançamentos de produtos no ano. No fim de agosto, durante a Expointer, destacou 11 desses equipamentos e informou que possui aproximadamente 3,4 mil colaboradores no Brasil.
Esse conjunto de indicadores coloca São Leopoldo não apenas como uma subsidiária comercial relevante, mas como uma base industrial e tecnológica integrada à produção internacional da STIHL.

Virginia Beach tornou-se a maior fábrica da STIHL no mundo
Nos Estados Unidos, a trajetória começou em 1974 de forma muito menor. A companhia iniciou a operação em Virginia Beach em uma instalação alugada de aproximadamente 20 mil pés quadrados, com 50 trabalhadores e montagem de apenas um modelo de motosserra.
Hoje, a situação é completamente diferente. Segundo dados corporativos atuais, o campus de Virginia Beach ocupa 150 acres, reúne aproximadamente 1,4 milhão de pés quadrados de área construída e emprega mais de 2.300 pessoas. Considerando também as filiais americanas, a STIHL informa mais de 2.700 funcionários nos Estados Unidos.
A instalação fabrica mais de 100 modelos de equipamentos STIHL. Quando consideradas diferentes variantes de produtos, a página corporativa global informa mais de 275 variantes, além de sabres e numerosos componentes plásticos. A planta produz tanto equipamentos a combustão quanto a bateria.
A escala dos processos internos evidencia o grau de verticalização. Somente na fabricação de plásticos são processados aproximadamente 16 milhões de quilos de granulado por ano. Em uma das células automatizadas citadas pela empresa, um tanque de combustível pode ser moldado, soldado, montado e submetido ao teste de estanqueidade em apenas 32 segundos.
Virginia Beach também funciona como plataforma exportadora. A STIHL Inc. informa que produtos da operação americana chegam a mais de 80 países, enquanto uma rede formada por distribuidores independentes e filiais próprias atende mais de 10 mil revendedores autorizados no mercado dos Estados Unidos.
Maior mercado individual do grupo
O peso da fábrica de Virginia Beach precisa ser analisado em conjunto com a importância comercial dos Estados Unidos. A América do Norte permaneceu em 2025 como o maior mercado individual do Grupo STIHL, respondendo por aproximadamente um terço das vendas mundiais.
No mesmo exercício, o Grupo STIHL registrou receita global de € 5,48 bilhões, crescimento de 2,8% sobre os € 5,33 bilhões de 2024. A companhia empregava 20.246 pessoas mundialmente ao final de 2025 e investiu € 335,7 milhões ao longo do ano.
A própria STIHL associa parte da resiliência de suas operações à estrutura produtiva internacional e ao elevado nível de fabricação própria. Nos Estados Unidos, essa estratégia ganha relevância adicional diante de mudanças nas condições comerciais. No balanço divulgado em maio de 2026, a companhia afirmou que anúncios de novas tarifas americanas contribuíram para que revendedores antecipassem a recomposição de estoques, ao mesmo tempo em que a política tarifária aumentou a incerteza do ambiente de negócios.
Investimentos ampliaram a fabricação em Virginia Beach
A expansão do complexo americano foi construída por sucessivos projetos. Um dos mais relevantes foi anunciado em 2022, quando a STIHL informou um investimento de US$ 49 milhões para ampliar a produção de sabres para motosserras em Virginia Beach. O projeto previa acrescentar 26 mil pés quadrados a uma instalação existente, levando o edifício a 86 mil pés quadrados, além da criação estimada de 15 postos de trabalho.
Em uma análise publicada em julho e atualizada em agosto de 2026, a Virginia Economic Development Partnership voltou a destacar o projeto de US$ 49 milhões como parte da sequência de expansões realizadas pela companhia no estado. A agência ressaltou também a proximidade do complexo com o Port of Virginia como uma das vantagens logísticas que contribuíram para a permanência e o crescimento da operação durante mais de cinco décadas.
Esse fator logístico é particularmente interessante quando se observa a conexão com o Brasil.
Cargas continuam saindo do Brasil em direção à Virgínia
Além das informações corporativas sobre exportações de cilindros aos Estados Unidos em 2023, registros de comércio exterior disponíveis em bases especializadas mostram movimentações posteriores entre as operações.
Um conhecimento de embarque indexado pela Panjiva registra, por exemplo, uma carga de 12,47 toneladas, embarcada pela STIHL Ferramentas Motorizadas em Rio Grande (RS) em agosto de 2025 e destinada à STIHL Inc., no endereço de Virginia Beach, com desembarque no Porto de Norfolk, na Virgínia. A descrição pública da mercadoria está ocultada no registro.
Dados agregados pela ImportInfo indicam que a STIHL Ferramentas Motorizadas continuou registrando embarques para os Estados Unidos em 2026, incluindo cargas que chegaram a Norfolk em junho. A base também aponta Norfolk como, historicamente, o principal porto americano associado aos embarques da subsidiária brasileira.
Esses registros são relevantes porque demonstram que existe movimentação logística recente entre o Brasil e o mercado americano. Entretanto, eles não permitem concluir que as cargas de 2025 ou 2026 contenham cilindros, já que o conteúdo detalhado não aparece nos dados públicos consultados. A última confirmação corporativa localizada pelo BVMI USA que identifica especificamente cilindros brasileiros enviados aos Estados Unidos refere-se às exportações de 2023.
Confirmar quais componentes produzidos atualmente em São Leopoldo abastecem Virginia Beach, seus volumes e os equipamentos nos quais são utilizados é, portanto, um dos principais pontos ainda abertos para aprofundamento junto à companhia.
A transformação para baterias chega ao chão de fábrica americano
Um dos movimentos industriais mais importantes na STIHL dos últimos anos é a expansão do portfólio a bateria. E Virginia Beach está diretamente inserida nessa transformação.
A companhia converteu cerca de 7.800 metros quadrados da fábrica americana para ampliar a produção de equipamentos a bateria, em um projeto que envolveu aproximadamente US$ 13 milhões. A iniciativa incluiu motosserras, sopradores, podadores, roçadeiras e outros equipamentos, além da ampliação da capacidade relacionada ao sistema profissional de baterias AP. A conclusão da expansão foi reportada pelo grupo em seu balanço posterior.
O movimento acompanha uma mudança mais ampla no portfólio. Em 2025, produtos a bateria já representavam 28% das vendas de equipamentos do Grupo STIHL, acima dos 25% registrados no ano anterior.
Em agosto de 2026, a STIHL lançou nos Estados Unidos a ALLPRO, nova geração de tecnologia de baterias profissionais. O sistema utiliza células com tecnologia tabless, foi desenvolvido para aumentar potência, velocidade de carregamento e vida útil e mantém compatibilidade com equipamentos e carregadores da plataforma AP existente.
A tecnologia também ganhou uma dimensão estratégica maior em julho, quando STIHL e Kärcher anunciaram uma aliança para adotar a ALLPRO como base tecnológica comum para equipamentos profissionais das duas fabricantes. Para clientes da STIHL, a empresa manteve a compatibilidade com o sistema AP; a Kärcher programou a entrada de equipamentos da nova plataforma para 2027.
Não há, porém, confirmação pública nas fontes consultadas de que as novas baterias ALLPRO sejam fabricadas em Virginia Beach. A informação confirmada é que a unidade americana fabrica equipamentos a bateria e recebeu investimentos específicos para ampliar essa capacidade. Essa diferenciação é relevante para evitar atribuir à fábrica uma etapa produtiva ainda não documentada.

Uma novidade de setembro de 2026 mostra a evolução do portfólio americano
A transição tecnológica pode ser observada também nos produtos atualmente fabricados na Virgínia. Em publicação de 22 de setembro de 2026, a STIHL USA destacou que a roçadeira profissional a bateria FSA 140 R, produzida em Virginia Beach, foi indicada à competição “Coolest Thing Made in Virginia”, promovida pela Virginia Manufacturers Association.
Embora a indicação em si tenha caráter institucional, o dado industrial é relevante: mostra que produtos profissionais a bateria já fazem parte efetivamente da produção local de Virginia Beach em 2026, poucos anos depois dos investimentos destinados à expansão dessa tecnologia.
A digitalização também cria uma ponte potencial entre Brasil e Estados Unidos
A relação entre as operações não precisa ser observada apenas pelo deslocamento físico de componentes.
Em São Leopoldo, a STIHL desenvolveu o Qualifica+, uma plataforma para gestão e monitoramento da capacitação de operadores de produção. A empresa informa que a ferramenta atende mais de 2 mil trabalhadores, representou investimento de R$ 760 mil e eliminou mais de 18 mil horas de atividades burocráticas desde sua implementação.
Em outubro de 2025, a STIHL Brasil informou que o projeto seria apresentado à operação dos Estados Unidos como exemplo de prática desenvolvida pela subsidiária brasileira. A divulgação não confirma que a solução posteriormente tenha sido implantada na fábrica americana, mas demonstra um fluxo potencial de conhecimento industrial no sentido Brasil–EUA.
Esse intercâmbio ocorre em um contexto mais amplo de digitalização global. O Grupo STIHL vem implantando o STIHL Production Operation Management, ou SPOM, plataforma integrada ao SAP S/4HANA destinada a padronizar controle de produção, manutenção, checklists, gestão de medidas e outros processos. A meta da companhia é introduzir gradualmente a solução em todos os locais de produção, formando uma arquitetura de “smart factory” conectada internacionalmente.
A presença industrial americana vai além da fábrica principal
Embora Virginia Beach seja o centro da operação americana e a maior unidade produtiva do grupo, a estrutura da STIHL nos Estados Unidos é mais ampla.
O Grupo incorporou a COSMOS Manufacturing, em South Chicago Heights, Illinois, especializada em peças estampadas e sistemas de escapamento. Quando anunciou a operação, a STIHL informou que a empresa empregava aproximadamente 200 pessoas e produzia cerca de nove milhões de silenciosos por ano. A aquisição foi apresentada como forma de ampliar a integração vertical e fortalecer a resiliência da cadeia de suprimentos. O Relatório Corporativo de 2025 já lista a empresa como CS COSMOS STIHL Manufacturing Inc., subsidiária integral do grupo.
O grupo também mantém a U.S.A. ZAMA Inc., em Franklin, Tennessee. O conjunto mostra que a presença corporativa americana da STIHL envolve uma rede maior do que apenas o campus de Virginia Beach, embora este continue sendo o principal polo de fabricação.
Mudança na liderança da STIHL Inc. em 2026
A operação americana também passou por mudança administrativa neste ano. Em fevereiro de 2026, Chris Keffer deixou o cargo de presidente e CEO da STIHL Inc. A companhia informou que Lorraine Amesbury Holder, vice-presidente sênior de Operações, e Uwe Hirsch, vice-presidente sênior de Finanças, TI, Compras e Qualidade, assumiriam conjuntamente as responsabilidades da presidência em caráter interino.
Em uma comunicação posterior, de maio, na qual anunciou Jason Mabb como vice-presidente de Vendas, a STIHL ainda identificava Hirsch como Interim Co-President. Na revisão do Media Center americano realizada pelo BVMI USA até 23 de setembro de 2026, não foi localizada divulgação posterior anunciando um novo presidente e CEO permanente.
A mudança acontece enquanto o grupo reforça sua estratégia para o mercado americano, simultaneamente ampliando o portfólio a bateria e mantendo a produção de equipamentos a combustão.
Brasil e Estados Unidos mostram como funciona a especialização industrial da STIHL
A relação entre São Leopoldo e Virginia Beach ajuda a ilustrar um modelo industrial que foi desenvolvido ao longo de décadas.
O Brasil entrou na rede produtiva da STIHL em 1973 e tornou-se especializado em componentes essenciais, especialmente cilindros. Os Estados Unidos entraram um ano depois e construíram a maior unidade fabril da companhia, dentro do seu maior mercado individual.
Hoje, São Leopoldo combina produção de componentes, fabricação de equipamentos, engenharia e coordenação regional. Virginia Beach combina manufatura em grande escala, componentes, automação, exportação e uma expansão crescente da produção a bateria.
O elo entre as duas operações também permanece visível na logística. A empresa confirmou anteriormente os Estados Unidos como destino dos cilindros brasileiros e os registros de transporte marítimo mostram cargas da subsidiária de São Leopoldo seguindo para a Virgínia em períodos mais recentes. O conteúdo dos embarques atuais, entretanto, ainda precisa ser detalhado pela companhia para que se possa medir com precisão a participação brasileira na produção americana.
Essa talvez seja a questão industrial mais relevante para uma operação que, embora pertença a um grupo alemão, reúne no Brasil uma das suas principais bases de componentes e, nos Estados Unidos, sua maior fábrica e seu principal mercado.
Para o BVMI USA, a história da STIHL evidencia como cadeias industriais internacionais podem conectar engenharia, componentes, processos produtivos e conhecimento desenvolvido no Brasil a operações de grande escala nos Estados Unidos — uma integração que se torna ainda mais relevante à medida que a companhia transforma simultaneamente sua manufatura tradicional e sua plataforma de equipamentos a bateria.
Produção editorial: Equipe BVMI USA
Esta matéria foi desenvolvida pelo BVMI USA — Indústrias Brasileiras nos Estados Unidos, divisão editorial do BVMI especializada na cobertura de empresas brasileiras, investimentos e operações industriais no mercado americano.
Desde 1997, o BVMI produz conteúdo jornalístico sobre investimentos e desenvolvimento industrial. As informações foram apuradas com base em fontes oficiais, documentos públicos e referências identificadas na reportagem.
Conteúdo de caráter exclusivamente editorial.





