A fábrica da Portobello nos EUA, instalada em Baxter, Tennessee, representa uma das etapas mais importantes da internacionalização industrial do grupo brasileiro.
Quando anunciou, em dezembro de 2018, que construiria sua primeira unidade produtiva nos Estados Unidos, a Portobello iniciou uma mudança estrutural em sua estratégia para o mercado norte-americano. A companhia, que já atuava no país por meio de distribuição, decidiu incorporar manufatura local ao modelo de internacionalização.
O projeto anunciado para Baxter, no Tennessee, previa inicialmente cerca de US$ 150 milhões em investimentos e a criação de 220 empregos no condado de Putnam, segundo o governo estadual. A unidade também seria a sede das operações americanas da companhia.
A produção comercial começou em outubro de 2023. Quase três anos depois, no segundo trimestre de 2026, a Portobello America informou que a fábrica já operava a plena capacidade. As demonstrações financeiras mais recentes da PBG S.A. mantêm a capacidade nominal da primeira etapa em 3,6 milhões de metros quadrados de revestimentos por ano, com aproximadamente 90 mil m² de área construída.
Entre o anúncio e a maturação da fábrica, o projeto passou por escolha de localização, estruturação imobiliária, contratação de fornecedores internacionais de equipamentos, implantação industrial, desenvolvimento da cadeia local e um período de ramp-up que durou mais de dois anos.
O caso oferece uma visão concreta de como uma indústria brasileira estruturou uma operação produtiva nos Estados Unidos — e das decisões que diferenciam uma presença baseada em distribuição de uma estratégia de manufatura local.
Conteúdo da Matéria

Portobello America em Baxter: o projeto em números
| Indicador | Informação documentada |
|---|---|
| Localização | Baxter, Putnam County, Tennessee |
| Área do terreno | Aproximadamente 370 mil m² |
| Área construída | Aproximadamente 90 mil m² |
| Capacidade nominal atual | 3,6 milhões de m²/ano na primeira etapa |
| Produção comercial | Desde outubro de 2023 |
| Estrutura imobiliária | Built-to-Suit / Sale-Leaseback com Oak Street |
| Valor da operação imobiliária | US$ 90 milhões |
| Prazo do lease | 20 anos |
| Investimento informado na primeira fase | US$ 55 milhões |
| Ocupação da capacidade no 2T25 | 80,9% |
| Situação no 2T26 | Operação a plena capacidade |
Os valores financeiros representam escopos e momentos diferentes do projeto e não devem ser simplesmente somados como se fossem uma única medida de CAPEX. A operação de US$ 90 milhões se refere à estrutura imobiliária anunciada com a Oak Street, enquanto a PBG informou posteriormente US$ 55 milhões como o montante total de investimento realizado na primeira fase da implantação industrial.
De distribuidora a fabricante nos Estados Unidos – Como foi implantada a fábrica da Portobello nos EUA
A presença da Portobello nos Estados Unidos antecede a fábrica de Baxter. A companhia informa que sua operação americana teve início ainda nos anos 1990 e, antes da implantação industrial, estava apoiada principalmente em distribuição de produtos no mercado norte-americano.
Baxter representou uma etapa diferente dessa trajetória.
A Portobello classifica o complexo como seu terceiro parque fabril e o primeiro instalado fora do Brasil. A fábrica foi concebida para reunir produção, armazenagem, escritórios corporativos e showroom dentro da estrutura americana.
A mudança não significou abandonar o abastecimento brasileiro. O modelo evoluiu para uma combinação entre produção americana e produtos fabricados no Brasil, permitindo que as duas origens atuassem de maneira complementar.
Esse desenho se tornaria mais evidente depois do ramp-up da fábrica.
Por que a Portobello escolheu o Tennessee
A definição da localização foi um dos elementos centrais do projeto.
Baxter fica no condado de Putnam, a aproximadamente 110 quilômetros a leste de Nashville, com acesso à Interstate 40, importante eixo rodoviário que atravessa o Tennessee no sentido leste-oeste. O terreno escolhido possui cerca de 370 mil m² e está situado junto ao corredor logístico.
Mas a decisão não foi apenas logística.
Nos documentos divulgados durante a implantação, a própria PBG descreveu Putnam County como um polo norte-americano de produção de revestimentos cerâmicos, favorecido pela disponibilidade regional de matérias-primas como argila e feldspato.
A escolha coloca a operação próxima de um ecossistema que já reunia matérias-primas e atividades relacionadas à fabricação de revestimentos.
Para uma indústria de transformação, essa proximidade pode reduzir distâncias de abastecimento e simplificar parte da logística de entrada. No caso da Portobello, documentos técnicos posteriores confirmariam que a maior parte dos materiais utilizados em Baxter passou a ser obtida no próprio Tennessee ou em estados vizinhos.
BVMI USA Insight | Localização vai além do incentivo fiscal
O projeto mostra que a escolha de um estado para uma fábrica não deve ser analisada apenas pela ótica de incentivos.
A combinação entre matéria-prima, fornecedores, infraestrutura logística e existência prévia de um cluster industrial pode ser tão relevante quanto benefícios governamentais na decisão de localização.
No caso de Baxter, esses fatores aparecem repetidamente nos documentos divulgados durante a implantação.
Engenharia financeira: o papel do Built-to-Suit e do Sale-Leaseback
Um dos elementos mais relevantes do projeto para executivos industriais está na maneira como a estrutura imobiliária foi organizada.
A Portobello inicialmente adquiriu o terreno em Baxter e iniciou investimentos relacionados ao empreendimento. Em março de 2022, porém, anunciou uma operação de Built-to-Suit e Sale-Leaseback com a Oak Street Real Estate Capital, divisão da Blue Owl Capital.
Pelo acordo divulgado ao mercado, a Oak Street compraria a propriedade e financiaria a construção da unidade, avaliada nessa estrutura em US$ 90 milhões. Ao final da construção, a Portobello America utilizaria o complexo por meio de um contrato de locação de 20 anos.
Na prática, o projeto passou a separar duas frentes de capital:
- estrutura imobiliária, financiada dentro da operação com a Oak Street;
- implantação industrial, envolvendo equipamentos, linha produtiva e demais investimentos da operação.
A estrutura não elimina obrigações financeiras — o contrato de arrendamento permanece como compromisso da operação —, mas reduz a necessidade de concentrar todo o capital do projeto na propriedade imobiliária.
Os equipamentos tiveram outra estrutura de financiamento
Poucos dias depois do anúncio do Built-to-Suit, a Portobello comunicou a contratação dos fornecedores de equipamentos para a primeira fase.
Segundo a companhia, os contratos foram fechados com fornecedores italianos e previam 15% do valor pago à vista e o saldo financiado diretamente pelos fornecedores pelo prazo de cinco anos. Naquele momento, os investimentos em equipamentos da fase inicial eram estimados em aproximadamente US$ 40 milhões.
O comunicado citava SACMI, BMR, System Ceramics, AirPower e LB entre os fornecedores selecionados e previa a incorporação de tecnologias de automação e supervisão de processos industriais.
Por que aparecem valores diferentes para a fábrica?
A evolução do projeto produziu diferentes cifras ao longo do tempo.
Em 2018, o anúncio do governo do Tennessee falava em aproximadamente US$ 150 milhões de investimento previsto.
Em março de 2022, ao anunciar a contratação dos equipamentos, a Portobello estimava que o empreendimento completo poderia chegar a US$ 160 milhões. O mesmo documento estimava aproximadamente US$ 40 milhões em equipamentos para a primeira fase.
Depois da conclusão da implantação, a documentação societária referente a 2023 registrou US$ 55 milhões — R$ 324,8 milhões na conversão informada pela companhia — como montante total investido na primeira fase.
Os números, portanto, devem ser interpretados de acordo com seu contexto: previsão inicial do projeto, estrutura imobiliária, estimativa de equipamentos e investimento efetivamente informado para a primeira etapa.

Cronologia: do anúncio à plena capacidade
2018 — escolha de Baxter
O governo do Tennessee e a Portobello anunciam a instalação da primeira fábrica americana da companhia no município de Baxter. O projeto é apresentado com previsão de aproximadamente US$ 150 milhões e 220 empregos. O cronograma divulgado naquele momento previa conclusão da unidade em 2021.
2021 — início da construção
Em comunicado posterior, a companhia informou que a construção havia começado no final de 2021. O projeto incluía linha de produção, depósito, escritórios corporativos e showroom.
Março de 2022 — estruturação do imóvel
Portobello e Oak Street anunciam a operação Built-to-Suit/Sale-Leaseback de US$ 90 milhões e contrato de locação de 20 anos.
Março de 2022 — contratação dos equipamentos
A companhia fecha contratos para a primeira fase com fornecedores industriais italianos, com financiamento direto de parte dos equipamentos por cinco anos.
Junho de 2023 — instalação concluída
A instalação dos equipamentos produtivos foi finalizada em junho. A PBG informa posteriormente que a construção havia sido concluída ao fim do primeiro semestre.
Julho de 2023 — testes industriais
A unidade inicia sua fase de produção de testes.
Outubro de 2023 — produção comercial
A fábrica passa a produzir efetivamente seu portfólio para comercialização e é oficialmente inaugurada.
Segundo trimestre de 2025 — ramp-up alcança 80,9%
A unidade chega a 80,9% de ocupação da capacidade instalada. Cerca de 70% do portfólio comercializado pela Portobello America já era produzido internamente nos Estados Unidos naquele período.
Segundo trimestre de 2026 — plena capacidade
A companhia informa que Baxter operou a plena capacidade durante o trimestre, marco que encerra uma etapa importante do ramp-up industrial iniciado em 2023.
Uma fábrica desenhada para flexibilidade e automação
A estrutura industrial de Baxter foi projetada para combinar escala com flexibilidade de produção.
Atualmente, a Portobello America informa que o complexo possui três prensas com capacidade de 6.500 toneladas cada, forno cerâmico de rolos com aproximadamente 200 metros de comprimento e área de armazenagem de 250 mil pés quadrados.
Segundo a companhia, a fábrica também possui o maior spray dryer da América do Norte. Como se trata de uma comparação apresentada pela própria Portobello America, a afirmação deve ser entendida como informação corporativa, e não como ranking independente realizado pelo BVMI USA.
A Portobello também divulgou durante a implantação que a planta incorporaria um sistema de supervisão industrial da SACMI voltado à automação, coleta de dados e integração dos processos produtivos.
Na apresentação institucional atual da unidade, o processo industrial é descrito em etapas que incluem preparação da matéria-prima, prensagem, aplicação de esmaltes e impressão digital, queima, retificação e polimento, controle de qualidade, embalagem e movimentação automatizada dentro do armazém.
Na inauguração, Cesar Gomes Jr., chairman do Portobello Grupo, associou a concepção da unidade à flexibilidade e ao nível de serviço, indicando que o objetivo da fábrica não se limitava à produção em grande volume.
A cadeia de suprimentos também foi localizada
A internacionalização da Portobello não se limitou à transferência da etapa fabril para território americano.
Em documento técnico datado de maio de 2024, a Portobello America informou que a maior parte dos materiais utilizados na fábrica era obtida no Tennessee ou em estados vizinhos.
O mesmo documento detalha a incorporação de resíduos pós-industriais e materiais reaproveitados no processo produtivo. Naquele momento, 62% da formulação da massa cerâmica, considerando o volume de sólidos secos, era formada pelos materiais reaproveitados descritos pela empresa, entre eles sobras do próprio processo de fabricação.
A companhia também declarou reutilizar 100% da água de processo em circuito fechado e utilizar gás natural na queima dos produtos, com sistemas de controle de emissões.
É importante diferenciar os dois indicadores: os 62% se referem ao conteúdo reaproveitado informado para a formulação da massa naquele documento, e não ao percentual de matérias-primas provenientes do Tennessee.
A fábrica mudou o modelo de abastecimento da Portobello America
A implantação de Baxter modificou a relação entre produção brasileira, importação e atendimento local.
No segundo trimestre de 2025, aproximadamente 70% do portfólio comercializado pela Portobello America já era produzido internamente nos Estados Unidos, segundo a PBG. A companhia informou que a parcela restante era complementada estrategicamente por produtos brasileiros de maior valor agregado.
Essa configuração mostra uma estratégia híbrida: fabricar localmente uma parcela crescente do portfólio sem eliminar a participação das plantas brasileiras na cadeia americana.
A manufatura nos Estados Unidos também reduz a exposição da operação a algumas limitações próprias de um modelo inteiramente baseado em importações. A própria PBG havia apontado, antes da entrada da fábrica em operação, que custos de produção em reais e aumentos de fretes internacionais pressionavam a unidade americana e que parte desses efeitos deveria ser reduzida com a produção local.
Para outras empresas brasileiras, o aspecto mais relevante do caso talvez esteja justamente aí: internacionalizar a produção não precisa significar substituir completamente a exportação. Dependendo do portfólio, as duas estruturas podem funcionar de forma complementar.
De 80,9% à plena capacidade: o ramp-up industrial
A evolução entre 2025 e 2026 ajuda a medir a maturação da fábrica.
No 2T25, Baxter operou com 80,9% da capacidade instalada. A Portobello America registrava naquele momento melhora de escala industrial e avanço da produção local.
No segundo trimestre de 2026, a situação mudou.
A companhia informou que a unidade manteve elevado nível de utilização industrial e operou a plena capacidade durante o trimestre.
A Portobello America encerrou o período com receita líquida de US$ 21,1 milhões — R$ 106,5 milhões —, crescimento de 7,8% em moeda constante em relação ao 2T25. A margem bruta chegou a 16,4%, alta de 11,1 pontos percentuais frente ao primeiro trimestre de 2026.
Segundo a companhia, a evolução da rentabilidade refletiu fatores como maior utilização da capacidade fabril, evolução do preço médio, melhoria do mix de vendas e fortalecimento dos canais de maior valor agregado.
O resultado é relevante para entender o ciclo de implantação: a fábrica não atingiu sua configuração operacional final no momento da inauguração. Depois de iniciar produção comercial em outubro de 2023, Baxter passou por mais de dois anos de desenvolvimento de escala, canais, portfólio e utilização dos ativos até chegar à plena capacidade reportada no 2T26.
As informações financeiras da PBG referentes a 30 de junho de 2026 continuam registrando capacidade anual de 3,6 milhões de m² nesta primeira etapa e 90 mil m² de área construída.
O que o projeto da Portobello mostra sobre internacionalização industrial nos Estados Unidos
1. O imóvel industrial não precisa consumir todo o capital do projeto
A operação com a Oak Street mostra uma alternativa à propriedade integral do ativo imobiliário.
Ao utilizar uma estrutura de Built-to-Suit/Sale-Leaseback, a companhia separou a construção e propriedade do imóvel de parte dos investimentos necessários à implantação produtiva.
Isso não transforma o modelo em solução universal — contratos de longo prazo criam compromissos financeiros e precisam ser analisados dentro da estrutura de capital de cada empresa —, mas demonstra que projetos industriais podem combinar diferentes fontes e modalidades de financiamento.
2. A localização deve considerar o ecossistema industrial
Baxter não foi escolhida apenas como um ponto geográfico dentro dos Estados Unidos.
A região reunia matérias-primas, tradição na produção cerâmica e acesso à Interstate 40. Posteriormente, a empresa conseguiu estruturar parte relevante de sua cadeia de abastecimento utilizando materiais provenientes do Tennessee e de estados próximos.
Para projetos industriais, a existência de fornecedores, mão de obra, matéria-prima, infraestrutura e conhecimento setorial pode reduzir riscos operacionais durante a implantação.
3. Produção local e exportação podem coexistir
A Portobello não substituiu integralmente os produtos brasileiros pela produção americana.
O modelo desenvolvido em Baxter passou a combinar manufatura nos Estados Unidos com produtos fornecidos pelo Brasil, criando uma cadeia internacional complementar.
Isso abre uma discussão relevante para outras indústrias brasileiras: a decisão entre exportar ou produzir no exterior nem sempre precisa ser binária.
4. Inaugurar uma fábrica é diferente de maturar uma operação
Baxter começou a produção comercial em outubro de 2023, mas ainda operava com 80,9% de utilização no segundo trimestre de 2025. A plena capacidade só foi reportada no 2T26.
O intervalo mostra que planejamento de internacionalização industrial precisa considerar não apenas construção e CAPEX, mas também ramp-up, formação de portfólio, canais comerciais, treinamento, produtividade e absorção da capacidade instalada.
Da exportação à base industrial permanente
A fábrica de Baxter representa mais do que a expansão física de uma empresa brasileira no exterior.
A Portobello já conhecia o mercado americano por meio de sua estrutura de distribuição. O passo seguinte exigiu transformar essa presença comercial em uma plataforma que incorporasse produção, estoque, tecnologia, fornecedores e desenvolvimento de produtos dentro dos Estados Unidos.
O caminho não ocorreu em uma única etapa.
O projeto foi anunciado em 2018, estruturado financeiramente e construído nos anos seguintes, entrou em produção comercial em 2023 e atingiu plena utilização da capacidade atual em 2026.
Nesse percurso, a Portobello combinou capital imobiliário de terceiros, financiamento de fornecedores de equipamentos, conhecimento industrial acumulado no Brasil e desenvolvimento de uma cadeia produtiva progressivamente localizada nos Estados Unidos.
Para empresários e executivos brasileiros que avaliam processos de internacionalização industrial, o principal aprendizado de Baxter não está em reproduzir exatamente a estrutura adotada pela Portobello.
Está em observar que a implantação de uma fábrica no exterior é resultado da combinação de decisão de mercado, site selection, financiamento, engenharia, fornecedores, supply chain, canais comerciais e tempo de maturação operacional.
É essa combinação — mais do que qualquer cifra isolada do investimento — que transforma Baxter em um caso relevante da presença industrial brasileira nos Estados Unidos.
Produção editorial: Equipe BVMI USA
Esta matéria foi desenvolvida pelo BVMI USA — Indústrias Brasileiras nos Estados Unidos, divisão editorial do BVMI especializada na cobertura de empresas brasileiras, investimentos e operações industriais no mercado americano.
Desde 1997, o BVMI produz conteúdo jornalístico sobre investimentos e desenvolvimento industrial. As informações foram apuradas com base em fontes oficiais, documentos públicos e referências identificadas na reportagem.
Conteúdo de caráter exclusivamente editorial.


